Na lavoura, dados são sinônimo de produtividade

quarta-feira, Junho 21, 2017

Mark Bryant planta milho, soja e trigo de inverno em seus quase 5 mil hectares de terra no Estado americano de Ohio. Raramente ele está no trator porque não é mais assim que os agricultores trabalham hoje em dia.

Em vez disso, Bryant passa seus dias analisando painéis cheios de dados captados pelos cerca de 20 iPhones e cinco iPads em que seus funcionários registram a área plantada em tempo real, usando o software da Granular, uma “startup” financiada pelo Google. Os dados captados por aviões, tratores autodirigidos e outras formas de sensores automáticos e remotos — com informações sobre produtividade, umidade e qualidade de solo — também são essenciais para o trabalho de Bryant.

“Imagine que, antes de a Granular aparecer, fazíamos tudo em uma planilha de Excel”, diz.

Bryant não é um agricultor atípico. Cada vez mais, esse está se tornando o modo como a agricultura deve ser praticada para uma lavoura ser competitiva.

“Se nós vamos realmente ser agricultores profissionais e alimentar o mundo todo, realmente precisamos usar essa tecnologia para fazer o trabalho”, diz Jeremy Jack, agricultor de Belzoni, no Estado americano do Mississipi.

Eis aqui o problema a ser enfrentado: vivemos em um planeta que tem 7 bilhões de habitantes e deve ter que alimentar 9 bilhões de bocas até a metade do século. Cerca de um bilhão ascenderá à classe média nesse período, acelerando radicalmente a demanda por calorias na forma de carnes e outros alimentos calóricos. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) prevê que os agricultores do mundo terão que produzir 70% mais calorias até 2050, em menos área plantada (talvez muito menos área) e com menos água do que fazem hoje.

A alternativa seria a fome, racionamentos impostos por governos e, como ocorreu durante a crise global de alimentos de 2007/08, sangue nas ruas.

Atualmente, há muito debate sobre a sustentabilidade de nosso sistema agrícola, que é altamente dependente tanto de água como de combustíveis fósseis. As pessoas também estão divididas entre transgênicos e orgânicos e animais criados nos pastos ou em confinamentos. Mas em qualquer cenário, sejam quais forem as soluções específicas para essas questões, um fato permanece: a agricultura familiar da América — e 97% dos 2,1 milhões de produtores dos Estados Unidos pertencem a famílias de agricultores — terá que produzir muito mais alimentos por hectare, acima dos ganhos de produtividade sem precedentes na história da agricultura já registrados no último século.

Os EUA têm mais terra arável que qualquer outro país da Terra, mas esse total está diminuindo — perto de 1.200 hectares são perdidos para construções por dia. Apesar disso, cerca de 360 milhões de hectares, ou quase 40% da superfície do país, são destinados à agricultura e os EUA são, de longe, o maior exportador de grãos do mundo. Tudo isso justifica a afirmação que, na prática, os EUA alimentam o mundo.

Para se obter mais alimento de cada hectare sem devastar a terra para as gerações futuras, é preciso conquistar duas coisas contraditórias ao mesmo tempo: tornar as lavouras ainda maiores — consolidação gera eficiência, como em qualquer outra indústria — e possibilitar aos agricultores entender o que está acontecendo em suas terras, chegando a uma resolução de dias, metros quadrados ou até plantas individuais.

O resultado é um conjunto de tecnologias agrícolas que surpreende, mas talvez seja só porque os avanços em tratores não ganhem tanta atenção da mídia quanto a última novidade em qualquer eletrônico de consumo

E essas são tecnologias que já estão em uso.

A maior produtora de veículos autônomos de quatro rodas não é a Tesla nem o Google: é a John Deere. E a cabine desses tratores autodirigidos está hoje tão cheia de telas e tablets que se parece com a cabine de um avião.

“Quando você pensa na John Deere, pensa num bando de engenheiros mecânicos criando peças de aço, mas temos 2.600 funcionários que desenvolvem software diariamente”, diz John May, diretor de tecnologia da informação da empresa americana. (Uma empresa de tecnologia, como o Facebook, por exemplo, tem três vezes mais desenvolvedores.)

O resultado é que a John Deere e suas concorrentes não estão apenas criando tratores e colheitadeiras que podem dirigir a si mesmos e até uns aos outros, automaticamente se alinhando em formações exatas para cruzar os campos, como aviões a jato em um show aéreo. Elas também estão criando sensores sem fio que mapeiam todo o campo e plantadeiras e máquinas de pulverização que podem variavelmente aplicar sementes e nutrientes na terra, como se fossem cabeças de uma impressora 3D de 20 toneladas.

Ao contrário da maioria das outras áreas da tecnologia, isso está acontecendo hoje. A John Deere já vende tratores autodirigidos há 15 anos. A novidade são as empresas centradas em dados com o pedigree do Vale do Silício, como a Granular, que tem 2 anos e meio de idade, e a startup de monitoramento aéreo DroneDeploy, que têm a capacidade de usar toda essa tecnologia para administrar as fazendas tão eficientemente quanto o Google opera seus centros de dados.

Segundo Sig Gorham, diretor-presidente e um dos fundadores da Granular, a agricultura finalmente obteve seu software de planejamento de recursos empresariais. Em outras palavras, o modo como conseguiremos alimentar as 10 bilhões de pessoas que os demógrafos estimam que um dia habitarão este mundo consistirá em gerenciar cada hectare de nossas lavouras com a mesma precisão que permite que empresas como a Apple produzam dezenas de milhões de iPhones em questão de semanas.

 

Autor: Christopher Mims

Fonte: The Wall Street Journal



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